terça-feira, 30 de julho de 2013

Documentário


O Padrinho Brando


Narcolepsia Easy-listening


Segunda parte.

Turbo: Anda cá Magana!
Paulinha: Aí o cacete!

Os gaiatos riam-se agachados por debaixo da janela do quarto da Paulinha, enquanto o jovem Turbo lhe fazia umas judiarias. Desconhecia estes rituais de acasalamento entre os dois mas pareceu-me apropriado, vivemos no século XXI e há que conservar estes bons costumes na intimidade. Passei na Mercearia do Mestre Reis, um velho guerrilheiro nas andanças pelo mundo. Na sua Mercearia há um pouco de tudo, ainda lá podemos encontrar autênticas relíquias como a Pasta Medicinal Couto, o Restaurador Olex, as pastilhas pretas Cosmos, muitos produtos da minha juventude. É um velho rijo, lembro-me de um episódio engraçado que se passou no ano passado com uns sujeitos da nova pide, a ASAE. Era segunda-feira e eu estava entretido a fazer o avio para a semana que começava quando entram dois individuos com cara de pós-modernos engravatados. Um começou logo a atirar o olho às prateleiras e o outro identificou-se como Sr. Inspector da ASAE ao qual o Mestre Reis respondeu -  Mestre Reis, Comerciante desde há quarenta anos, diga lá se faz favor!

O que se passou a seguir segue em diálogo:

Sr. Inspector da ASAE: Venho aqui inspeccionar os produtos e o equipamento que o senhor tem no seu estabelecimento!
Mestre Reis: Atão, fizeram-lhe mal?
Sr. Inspector da ASAE: Desculpe?
Mestre Reis: Ouça lá! Olhe à sua volta! Eu aqui só vendo produtos regionais, de qualidade e certificados. Sou Merceeiro há quarenta anos e nunca ninguém se queixou dos produtos que compra aqui.
Sr. Inspector da ASAE: Mas eu tenho um mandato para fazer uma vistoria ao seu estabelecimento, Portanto!
Mestre Reis: Esparvoerado d'um cabrão! Eu quero é que voçê enfie a vistoria nas nalgas e se ponha a andar antes que lhe vá ao focinho!!

O Sr. Inspector da ASAE saíu de mansinho da Mercearia do Mestre Reis e deslocou-se à esquadra. Regressou, qual pavão escoltado à Mercearia e denunciou o Mestre Reis. Na semana seguinte, a Mercearia fechou e o Mestre Reis reformou-se. Consta que o tal Sr. Inspector desapareceu, nunca mais ninguém lhe soube o paradeiro. Olho por olho, dente por dente, costuma-se dizer, sendo nós um povo pacifico claro.

Hoje à noite depois do jantar, abri a bagaceira que tinha ali guardada, um dos últimos produtos comprados na Mercearia, bebi-a afundando-me em pensamentos lá para cima para o norte, onde fui feliz durante uns valentes anos. Bom povo aquele, parecido ao nosso.

Pois Sorte!


segunda-feira, 29 de julho de 2013

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Macacos me mordam!


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Pois Sorte!


Narcolepsia Easy-listening


"L'important c'est pas la chute...C'est l'atterrissage."

Primeira parte.

Simone: Monsieur, s'il vous plait!
Zé Bacoro: E atão diga lá menina?
Simone: Je voudrais une “sandes mista”!
Zé Bacoro: Com Manteiga?
Simone: Oui, merci!

Hoje de manhã chegou à aldeia uma moça francesa no autocarro da carreira, parece que veio visitar um tio que vive aqui numa comunidade ao pé da aldeia, ali pós lados da barragem. Segundo me contou o Patacas, a moça foi tomar o pequeno-almoço ao central e meteu conversa com ele - “Perguntou-me se eu sabia onde era a comunidade, eu respondi-lhe que era ali pós lados da barragem”. O velho patacas, um moçambicano, vive na aldeia há uns anos, trabalhava no café do Ti Joaquim Maria em Maputo e quando a guerra acabou veio para Portugal com ele, ainda trabalhou como empregado de mesa no Central mas gostava muito da pinga e o Zé Bácoro pô-lo a andar. Desde aí, vive com a Dona Amélia, a senhora que me faz a bainha às calças.

Há pouco conheci a moça francesa, chama-se Simone Brel, parece que é sobrinha do famoso Jacques Brel. Veio cá passar o verão, pois é, está um calor do cacete! Contou-me que conheceu um casal, o rapaz era simpático e a moça tinha estado em França a trabalhar, é obvio que só podia ser o jovem Turbo e a Paulinha. Foram os três na caliquêra do Turbo deixar a Simone à comunidade. É uma jovem de pele morena, cabelo curto, olhos amendoados castanhos claros, de pequena estatura e muito conversadora. Esclareceu-me uma curiosidade minha, afinal os franceses tomam banho regularmente, claro está. São seis da tarde, o sol está a descer, um calor seco invade o largo da aldeia, os moços pequenos jogam à bola, um enverga uma camisola do Rui Costa, número 10 do meu Glorioso, ok sou do Benfica, desde pequeno. Lembro-me de uma vez o meu pai me ter levado à Catedral ver um Benfica-Parma, ganhámos 2:1, o Paneira falhou um penálti.

Estou sentado na esplanada improvisada do Central a beber uma mini Sagres com o Tirapicos, uma grande personagem este mestre, era guitarra solo nos Deluxe! uma grupo de baile formado por moços aqui da aldeia. As moças estremeciam e vibravam com os solos eléctricos e o cabelo à Jim Morrison do Tirapicos, era um mulherengo, daqueles com direito a autógrafos e tudo, agora deixou-se de músicas e é vendedor do Circulo de Leitores. Por ali ficámos, bebendo minis e petiscando uns pica-paus, à noite fomos jantar à casa do “Manitas” umas belissimas favas com um tinto caseiro, percebem porque lhe chamamos “Manitas”? O Chef Michel não lhe chega aos calcanhares. Acabámos a noite em torno da mesa com a malta, conversando sobre o tudo e o nada, dá-me um especial prazer estes momentos de fraternidade em torno de uma boa pinga enquanto o Tirapicos ensaia uns acordes.

Hoje de manhã, encontrei o Jovem Turbo ao pé da Junta, perguntou-me se podia falar comigo, acedi. Queria saber coisas sobre a moça francesa, desconfiei. Parece que a Paulinha tinha passado a noite na comunidade a convite da Simone e o Turbo, como bom manês que se preze, ficou cheio de ciumeira da moça. Disse-lhe que não sabia de nada e que não tinha nada a ver com a vida dos outros, já me chegava a minha. Abalou a grunhir qualquer coisa, não percebi. Mas fiquei com impressão que o Turbo desconfia que a Paulinha anda de olho na moça francesa, é assim a vida.

Recebi uma triste noticia agora aqui no Central. O Zé Bácoro, entre lágrimas, balbuciou-me que o Patacas tinha abalado, foi encontrado já sem vida hoje de manhã na cama pela Dona Amélia, morreu durante o sono, a dormir. Há dias confessou-me que andava com muitas saudades da sua terra e que tinha telefonado a uma irmã sua. O velho Patacas aterrou na pista da eternidade a dormir, concerteza abalou de forma que tudo lhe pareceu um sonho e neste voltou a Maputo, antiga Lourenço Marques e viu-se sentado na esplanada do Clube Naval a beber uma Laurentina e a comer camarão tigre sob a brisa perfumada dos jacarandás.

Hoje a aldeia parou no tempo, o sino da igreja acompanhou o Tirapicos à guitarra pela noite dentro. Um Adagio pelo Patacas.